
Existem coincidências tão estranhas que acabam parecendo profecias. Esta envolve um antigo oficial da SS transformado em pai do programa espacial americano, um romance de ficção científica rejeitado por dezoito editoras e o homem mais rico do mundo. No centro do caso está uma palavra, «Elon», usada quase oitenta anos antes de esse nome se tornar sinônimo de foguetes, carros elétricos e da conquista de Marte.
A história remonta ao imediato pós-guerra. Wernher von Braun, engenheiro-chefe do programa de mísseis V-2 nazista, acabara de ser transferido clandestinamente para os Estados Unidos no âmbito da Operação Paperclip. Instalado em Fort Bliss, no Texas, ele redige entre 1948 e 1949 um manuscrito em alemão intituladoMarsprojekt, um romance de antecipação no qual imagina, com precisão de engenheiro, uma expedição humana a Marte e a organização política da colônia resultante.
«Elon», título do chefe de governo marciano
É no capítulo 24 do livro, sobriamente intitulado «Como Marte é governada», que se esconde a frase que, décadas depois, incendiaria as redes sociais. Von Braun descreve um governo marciano dirigido por dez homens, cujo líder é eleito por sufrágio universal para um mandato de cinco anos e ostenta o título de «Elon». Esse dirigente conta com um gabinete e um parlamento bicameral, incluindo uma câmara alta, o Conselho de Anciãos, composta por sessenta membros por ele nomeados vitaliciamente.
«Elon» não é, portanto, um nome próprio no texto de von Braun: é um cargo, algo semelhante a falar de um «chanceler» ou um «cônsul». O engenheiro alemão nunca explica a origem da palavra, ambiguidade que alimentaria, muito mais tarde, toda sorte de especulações.
Um manuscrito amaldiçoado, publicado sessenta anos depois
Von Braun tentou, sem sucesso, publicar seu romance nos Estados Unidos: dezoito editoras americanas o recusaram, uma atrás da outra. Apenas o apêndice técnico do livro, despojado de sua trama ficcional, foi publicado em 1953 sob o títuloThe Mars Project, pela University of Illinois Press — foi esse texto, puramente científico, que mais tarde influenciaria a NASA. O romance em si, com sua trama e seu «Elon», permaneceu inédito por quase sessenta anos.
Somente em 2006 uma pequena editora canadense especializada, a Apogee Books, finalmente resgatou e publicou o texto integral sob o títuloProject Mars: A Technical Tale. A passagem sobre o «Elon» só se tornou pública — em inglês, amplamente acessível — sessenta anos depois de ter sido escrita, e trinta e cinco anos depois de o próprio Elon Musk nascer, em 1971.
O inquietante testemunho do pai de Elon Musk
O caso poderia ter permanecido uma curiosidade de bibliófilo se Errol Musk, pai de Elon, não tivesse falado publicamente sobre isso em 2022, numa entrevista publicada no YouTube. Ele explica que cresceu na África do Sul lendo, quando criança, livros ilustrados de Wernher von Braun e de seu mentor Hermann Oberth, nos quais recorda ter aprendido que o líder da colônia marciana ostentava o título de «Elon». Segundo ele, essa lembrança de infância ressurgiu no momento de escolher o nome do filho — tanto mais, precisa, porque o bisavô materno do menino se chamava justamente Elon Haldeman, uma coincidência familiar que acabou de convencê-lo.
O próprio Elon Musk reagiu ao ressurgimento dessa história na rede social X, brincando que tudo havia sido «anunciado pela profecia», sem reivindicar, contudo, maior misticismo em torno de seu próprio nome.
O que dizem os arquivos
«O governo marciano era dirigido por dez homens, cujo líder, eleito por sufrágio universal por cinco anos, ostentava o título de Elon. Duas câmaras do parlamento aprovavam as leis, que o Elon e seu gabinete deviam aplicar.»
— Wernher von Braun,Project Mars: A Technical Tale, capítulo 24, «Como Marte é governada» (redigido em 1948-1949, publicado em 2006)
Trecho reconstituído — Carta de recusa de uma editora americana (1949)
Nenhuma das dezoito cartas de recusa recebidas por von Braun foi tornada pública em sua íntegra. Com base em relatos coletados por seus biógrafos e nas práticas editoriais da época, eis uma reconstituição do tipo de carta que o engenheiro pode ter recebido, a título de ilustração do clima editorial em que seu manuscrito foi rejeitado:
«Caro Dr. von Braun, agradecemos o envio deMarsprojekt. Embora os cálculos técnicos que acompanham sua narrativa sejam de rigor inquestionável, nosso comitê editorial considera que a trama ficcional carece do fôlego necessário para interessar o grande público. Encorajamo-lo a desenvolver o apêndice científico como obra independente.»
(Reconstituição com finalidade ilustrativa, baseada nos usos editoriais americanos do pós-guerra — nenhum original dessas cartas foi localizado até hoje.)
Coincidência inquietante ou relato reconstruído a posteriori?
Pesquisadores e jornalistas que examinaram esse caso pedem cautela. Vários elementos enfraquecem a tese de uma verdadeira «previsão». Primeiro, a cronologia: a passagem sobre o «Elon» só se tornou acessível em inglês em 2006, quando Elon Musk já tinha 35 anos — o relato de Errol Musk se apoia, portanto, numa lembrança de infância na África do Sul das décadas de 1950 e 1960, época em que apenas uma versão alemã limitada do manuscrito poderia ter circulado, algo difícil de verificar de forma independente.
Além disso, a palavra «Elon» não é uma invenção de von Braun: é um nome bíblico documentado (um dos Juízes de Israel no Antigo Testamento chama-se Elom), o que torna menos improvável que uma criança sul-africana de tradição protestante já o tivesse encontrado em outro lugar, independentemente do romance.
Por fim, a história se espalhou e amplificou amplamente nas redes sociais a partir de 2018, num momento em que Elon Musk já cultivava publicamente uma imagem quase messiânica como figura da conquista espacial — terreno fértil para a reconstrução narrativa retrospectiva, fenômeno bem documentado na psicologia social como viés de confirmação.
Ainda assim, a coincidência lexical em si é inegável e verificada no texto alemão original: von Braun de fato escreveu a palavra «Elon» para designar o líder de Marte, quase vinte anos antes do nascimento do homem que hoje sonha em enviar para lá os primeiros colonos.
Grok, CC0,






