
Entre 1982 e 1986, vários milhares de moradores do condado de Westchester, no estado de Nova York, relataram o aparecimento recorrente de um imenso objeto silencioso, em forma de V ou de bumerangue, deslizando a baixa altitude sobre a rodovia Taconic Parkway. Nem os investigadores da época nem as autoridades chegaram a explicar completamente o fenômeno.
Uma véspera de Ano Novo fora do comum
Segundo os arquivos reunidos pelos primeiros investigadores, tudo começou na noite de 31 de dezembro de 1982, poucos minutos antes da meia-noite. Um policial aposentado, sentado no quintal de sua casa na cidade de Kent, avistou ao sul um conjunto de luzes vermelhas, verdes e brancas. A princípio, pensou tratar-se de um avião em situação de emergência. Mas o objeto passou sobre sua casa a uma altura que ele mesmo estimou em cerca de 150 metros, movendo-se de forma lenta e silenciosa demais para uma aeronave convencional — acompanhado apenas por um zumbido grave e distante. Ao observá-lo com atenção, o homem distinguiu uma fuselagem triangular escura ligando as luzes dispostas em forma de V.
Esse relato isolado passou quase despercebido durante meses. Seria preciso esperar até o inverno seguinte para que o caso ganhasse uma dimensão completamente diferente.
A noite de 24 de março de 1983: a central telefônica de Yorktown sobrecarregada
Uma semana depois de o vice-xerife Dennis Sant ter avistado, perto de Brewster, um objeto metálico e escuro que descreveria como «uma cidade de luzes», os relatos voltaram a se multiplicar. Em 24 de março de 1983, um ex-policial avistou novamente a formação em V, desta vez acompanhada de um zumbido mais perceptível. Na mesma noite, o engenheiro de informática da IBM Ed Burns dirigia pela Taconic Parkway perto de Millwood quando o rádio de seu carro começou a chiar; ele parou no acostamento, junto com dezenas de outros motoristas, para observar o que mais tarde descreveria como uma gigantesca «nave triangular» completamente silenciosa.
Em Yorktown, as ligações chegaram em tal quantidade que a central telefônica da polícia local quase entrou em colapso, a ponto de as autoridades temerem não conseguir atender emergências reais. Dois policiais presentes no local ao mesmo tempo deram, no entanto, descrições contraditórias: um falava de uma massa única portando várias luzes, o outro descrevia uma formação cerrada de pequenos aviões — uma divergência que alimentaria o debate sobre a verdadeira natureza do fenômeno por anos a fio.
Uma investigação científica é organizada
Em 26 de março de 1983, o jornal Westchester-Rockland Daily Item publicou na primeira página uma matéria que se tornaria célebre, com a manchete: «Centenas afirmam ter visto um OVNI». O artigo chamou a atenção de um grupo de pesquisadores independentes ligados a J. Allen Hynek, ex-consultor científico da Força Aérea dos Estados Unidos nos projetos Sign, Grudge e Blue Book, e fundador do Center for UFO Studies. Ao lado do astrônomo, o professor e investigador Philip J. Imbrogno assumiu a liderança do trabalho de campo.
A equipe montou uma linha telefônica dedicada e recebeu mais de trezentas ligações em uma única noite, apenas na data de 24 de março. Uma testemunha, citada mais tarde no livro do grupo, resumiu a impressão geral em uma frase que se tornaria célebre entre os pesquisadores do caso: se algo como uma cidade voadora existisse, era exatamente isso que o objeto parecia ser naquela noite. Os resultados dessa investigação foram finalmente publicados por Hynek, Imbrogno e o jornalista Bob Pratt em Night Siege: The Hudson Valley UFO Sightings, que continua sendo hoje a referência documental sobre o caso.
Um único objeto, ou dezenas de pilotos brincalhões?
Diante da magnitude dos relatos, a explicação mais comumente oferecida foi a de uma pegadinha: um grupo de pilotos amadores voando em formação cerrada a bordo de ultraleves, com luzes piscantes acesas, para simular uma única nave. A teoria encontrou uma confirmação parcial e sombria na noite de Halloween de 1984, quando um pequeno avião pousou no aeródromo de Stormville — um dos pontos de passagem recorrentes do objeto — e seu piloto foi detido por um policial estadual que suspeitava de seu envolvimento na encenação. O homem negou qualquer participação e nunca chegou a ser formalmente acusado, mas o relatório redigido pelo policial naquela noite se tornaria, aos olhos dos céticos, a principal prova da explicação racional.
O próprio Imbrogno rejeitou, no entanto, essa leitura única dos fatos. Ele argumentou que o objeto havia sido avistado bem antes de esses voos noturnos em formação começarem, e que testemunhas que presenciaram várias aparições distintas relatavam diferenças nítidas entre elas — algumas correspondendo à descrição de um aparelho único e rígido, outras, mais tardias, à de um enxame de pequenas aeronaves. O controlador de tráfego aéreo Anthony Capaldi, que observou pessoalmente o objeto sobre Stormville no verão de 1983, observou ainda que aviões voando em uma formação tão cerrada teriam necessariamente produzido um ruído de motor perceptível — no entanto, a grande maioria das testemunhas insistia, ao contrário, no silêncio quase absoluto do aparelho, interrompido no máximo por um leve zumbido.
O sobrevoo da usina nuclear de Indian Point
O episódio que deu ao caso seu contorno mais inquietante ocorreu em 14 de junho e 24 de julho de 1984, quando várias testemunhas — entre elas, guardas de segurança da usina nuclear de Indian Point, na margem leste do Hudson — relataram um objeto estruturado e de grande porte que se deslocava lentamente ou permanecia parado nas imediações dos reatores. Um dos guardas de plantão estimou que o aparelho media cerca de trinta metros de comprimento e voava a menos de trezentos metros de altitude, comparando-o a vários helicópteros voando em formação extremamente cerrada. Para os que se inclinavam pela explicação extraordinária, a proximidade de uma instalação tão sensível quanto uma usina nuclear tornava bem menos convincente a hipótese dos pilotos brincalhões: poucos entusiastas de ultraleves, argumentava-se, se arriscariam a sobrevoar dessa forma uma instalação protegida.
Um fenômeno que ultrapassou amplamente Westchester
Segundo as estimativas da equipe de Hynek e Imbrogno, o objeto — ou os objetos — foram avistados por mais de cinco mil testemunhas entre 1982 e 1986, em uma área que ultrapassava amplamente o condado de Westchester: os relatos abrangem também os condados de Putnam e Dutchess, estendendo-se até o vizinho estado de Connecticut, incluindo New Haven e Brookfield. Os relatos apontam para uma trajetória preferencial ao longo do corredor formado pela Taconic Parkway, uma tendência marcada a sobrevoar corpos d'água, e um aparecimento exclusivamente noturno — nenhum relato confiável registra uma observação diurna.
O caso teve um notável ressurgimento midiático em 1992, quando o programa americano Unsolved Mysteries lhe dedicou uma reportagem. O programa conseguiu reunir um grupo de pilotos dispostos a reivindicar a autoria dos voos em formação — mas eles recuaram na hora de recriar publicamente a manobra em V que alegavam ter executado, alegando as infrações às normas de aviação civil que tal demonstração implicaria. O enigma, até hoje, permanece oficialmente sem solução.
Cronologia
31 de dezembro de 1982 — Primeiro avistamento registrado, em Kent, Nova York.
17 de março de 1983 — Avistamento do vice-xerife Dennis Sant perto de Brewster; trânsito interrompido na Interestadual 84.
24 de março de 1983 — Onda maior de avistamentos; central telefônica de Yorktown sobrecarregada; mais de trezentas ligações recebidas pela linha de investigação em uma única noite.
26 de março de 1983 — Publicação da matéria do Westchester-Rockland Daily Item; início da investigação de Hynek e Imbrogno.
Verão de 1983 — Avistamento do controlador de tráfego aéreo Anthony Capaldi sobre Stormville.
14 de junho e 24 de julho de 1984 — Sobrevoos relatados perto da usina nuclear de Indian Point.
31 de outubro de 1984 — Detenção de um piloto no aeródromo de Stormville.
1992 — Exibição da reportagem do Unsolved Mysteries.
Documento de arquivo — depoimento coletado pelos investigadores (tradução)
«Se algo como uma cidade voadora existisse, era exatamente isso que o objeto parecia ser. Não havia ruído de motor algum, apenas aquele zumbido grave e quase contínuo. As luzes estavam dispostas em um V muito nítido, e o conjunto avançava com uma lentidão que não fazia sentido algum para uma aeronave daquele tamanho aparente.»
— Depoimento citado em Night Siege: The Hudson Valley UFO Sightings (Hynek, Imbrogno e Pratt), sobre os acontecimentos de 24 de março de 1983.
Grok, CC0,
