
Tudo começa como uma viagem qualquer. Jeff Olsen regressa a casa, em Bountiful, no Utah, depois de visitar familiares no sul do estado. A seu lado, a esposa Tamara adormeceu. No banco de trás, o filho de sete anos, Spencer, brinca tranquilamente, enquanto o mais novo, Griffin, ainda bebé, dorme na cadeirinha. A estrada é longa, a noite cai, e Jeff sente as pálpebras a pesar.
Aquilo que descreve depois como «um piscar de olhos de um segundo» basta para mudar quatro vidas. O carro sai da estrada e capota várias vezes, num estrondo de vidros partidos e gravilha projetada. Quando o veículo finalmente para, Jeff recupera brevemente a consciência, tomado pela dor, ouvindo Spencer a chorar antes de voltar a perder os sentidos.
O balanço será dramático: Tamara e o pequeno Griffin não sobrevivem ao acidente. Jeff é encontrado em estado crítico — pernas esmagadas, abdómen dilacerado, braço direito quase arrancado. Segundo o relato que ele próprio deu anos mais tarde, é neste preciso instante que a sua história deixa de ser um simples acidente de viação para entrar no território do inexplicável.
«Estava suspenso por cima do acidente»
Jeff Olsen garante ter deixado o corpo no exato momento do impacto. Livre da dor, num estado de calma absoluta, diz ter-se encontrado a flutuar sobre os destroços, onde uma presença familiar se lhe teria juntado: a de Tamara, envolvida com ele naquilo que descreve como «uma bolha de luz» que irradiava uma paz total.
Segundo o seu relato, a esposa ter-lhe-ia então falado sem rodeios: não podia ficar, tinha de voltar. Spencer, ainda vivo, precisava dele. Jeff diz ter-se despedido de Tamara antes de se sentir «à deriva», afastando-se dela — para se encontrar, momentos depois segundo o seu relato, a flutuar pelos corredores do hospital para onde tinha acabado de ser levado, observando sem dor nem julgamento os doentes e a equipa à sua volta, até reconhecer, horrorizado, o próprio corpo, irreconhecível, numa maca.
«A Tamara olhou para mim, com o rosto sério. "Jeff, não podes ficar aqui, disse-me ela. Tens de voltar."»
Do outro lado do corredor, um médico que também «vê»
É aqui que o testemunho ganha um contorno raro neste tipo de relato: existe uma segunda testemunha, e essa testemunha é um médico de urgências. O Dr. Jeff O'Driscoll tinha acabado de fazer a sua ronda quando uma enfermeira, Rachel, com quem partilhava há alguns meses, em confidência, experiências que nenhum dos dois ousava mencionar diante dos colegas, o chamou: «Vem ver isto. A mulher dele está... ali.»
O Dr. O'Driscoll conta ter já vivido, mesmo antes de abraçar a medicina, episódios que ele próprio classifica de irracionais — entre eles, um pressentimento aos dezasseis anos que, acredita, o poupou a um acidente de viação mais grave, e mais tarde, já como médico, uma intuição que o levou a pedir uma tomografia que acabou por salvar a vida de um doente sem sintomas aparentes. Nesse dia, na sala onde tentavam estabilizar Jeff Olsen, afirma ter sentido uma presença e distinguido, a flutuar sobre a cama, a silhueta translúcida de uma mulher de cabelo loiro encaracolado, vestida de branco, com o rosto sereno — uma silhueta que, sem que ninguém lhe dissesse, «soube» ser a esposa do doente.
Segundo o seu relato, a silhueta dirigiu-lhe um olhar carregado de gratidão para com a equipa médica antes de se desvanecer. A enfermeira Rachel, presente no mesmo momento, ter-lhe-á perguntado de imediato: «Também a viste?»
O encontro no hospital
Semanas mais tarde, segundo o relato de ambos, o Dr. O'Driscoll foi ao encontro de Jeff Olsen, então em reabilitação após a amputação de uma perna, para lhe contar — com a ajuda da enfermeira Rachel — o que julgavam ter presenciado. Jeff Olsen ter-lhe-á respondido que a descrição correspondia exatamente a Tamara, antes de confidenciar, por sua vez, aquilo que tinha vivido no dia do acidente. É este o momento que os dois homens apresentam hoje como o ponto de partida de uma amizade que dura há mais de vinte anos.
Um fenómeno longe de ser isolado
O caso Olsen/O'Driscoll insere-se num corpus muito mais vasto de testemunhos de experiências de quase morte (EQM), relatadas tanto por doentes como, mais raramente, pelo pessoal médico que os rodeia. Entre os casos documentados mais citados está o de Don Piper, declarado clinicamente morto após um acidente de viação no Texas em 1989, ou o da cirurgiã Mary Neal, ela própria médica, vítima de um afogamento acidental no Chile em 1999.
O psiquiatra Bruce Greyson, professor emérito da Universidade da Virgínia e autor de uma escala de avaliação ainda hoje utilizada para medir a profundidade destas experiências, tem reunido desde os anos 1970 milhares de relatos com traços comuns surpreendentes: saída do corpo, túnel, luz, sensação de paz, encontro com entes queridos falecidos e um regresso «escolhido» ou imposto ao corpo físico.
O que diz a ciência: a hipótese da consciência residual
No plano clínico, o investigador que mais tem feito avançar este debate é, provavelmente, o Dr. Sam Parnia, pneumologista e especialista em reanimação, hoje na Universidade de Nova Iorque. Entre 2008 e 2012, o seu estudo AWARE, realizado em vários hospitais do Reino Unido, dos Estados Unidos e da Áustria com mais de 2000 doentes que tinham sofrido uma paragem cardíaca, procurava verificar objetivamente os relatos de saídas do corpo, nomeadamente escondendo objetos em prateleiras altas nas salas de reanimação — sem que nenhum doente conseguisse identificá-los de forma convincente.
Um estudo posterior, AWARE-II, publicado em 2023 na revistaResuscitation, detetou, pelo contrário, em alguns doentes em paragem cardíaca, sinais elétricos cerebrais — ondas delta, teta, alfa e beta, normalmente associadas a estados de consciência elevados — até uma hora após o início da reanimação, altura em que o cérebro deveria estar privado de oxigénio. Para o Dr. Parnia, estes dados sugerem que«a consciência poderá separar-se do cérebro no momento da morte», uma hipótese que continua, no entanto, a ser minoritária e muito debatida na comunidade científica.
A análise crítica: a hipótese neurológica
Perante estas interpretações, vários neurologistas opõem explicações estritamente fisiológicas. O Dr. Kevin Nelson, da Universidade do Kentucky, mostrou num estudo publicado na revistaNeurologyque 60% das pessoas que tinham vivido uma EQM apresentavam antecedentes de «intrusão do sono REM» — um estado em que os mecanismos do sonho invadem a vigília —, contra apenas 24% num grupo de controlo. Segundo ele, o tronco cerebral de certas pessoas estaria simplesmente mais predisposto a misturar os estados de sono e de vigília em situações de stress extremo, o que produziria visões luminosas e uma sensação de dissociação corporal sem necessidade de qualquer explicação sobrenatural.
Outros investigadores apontam ainda a hipótese de um desequilíbrio ácido-base ligado ao excesso de dióxido de carbono no sangue (hipercapnia), suscetível de provocar alucinações e sensações de saída do corpo. Ainda assim, estes modelos neurológicos continuam a ter dificuldade em explicar um aspeto muito concreto do caso Olsen/O'Driscoll: a coincidência entre a visão relatada pelo doente e a, independente e não sugerida, de um membro da equipa de saúde presente na sala — um elemento que, a confirmar-se, escapa às explicações puramente intracranianas, uma vez que envolve dois sistemas nervosos distintos no mesmo momento.
Um dossiê que permanece em aberto
Nem milagre demonstrado, nem alucinação definitivamente explicada: o testemunho de Jeff Olsen e do Dr. Jeff O'Driscoll ilustra os limites atuais da ciência perante experiências vividas na fronteira da morte clínica. Vinte anos depois do acidente, os dois homens afirmam continuar próximos e atribuem a este encontro improvável parte da sua reconstrução — tendo Jeff Olsen atravessado, segundo conta, uma profunda depressão antes de encontrar, diz ele, um sentido para o que tinha vivido.
Na falta de um protocolo que permita verificar objetivamente uma perceção partilhada por duas pessoas distintas no momento crítico, este tipo de testemunho continuará provavelmente, por muito tempo ainda, a pertencer ao domínio do relato pessoal mais do que ao da prova científica.
Grok, CC0,

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